Os agonistas dos receptores de GLP-1 e GIP, como a semaglutida e a tirzepatida, têm se mostrado extremamente eficazes na perda de peso e controle glicêmico. No entanto, a adesão ao tratamento pode ser comprometida devido à alta prevalência de efeitos gastrointestinais, especialmente no início do uso.
Dados sobre adesão e efeitos adversos: a realidade clínica
Embora os análogos de GLP-1/GIP representem uma revolução terapêutica no tratamento da obesidade e diabetes tipo 2, sua tolerabilidade gastrointestinal continua sendo um fator limitante.
O desconforto associado ao uso desses medicamentos pode impactar diretamente a continuidade do tratamento. Compreender a magnitude desses efeitos adversos e como eles se apresentam na prática clínica é fundamental para estabelecer estratégias de manejo eficazes.
Um estudo conduzido com 122 clínicos revelou uma discrepância significativa entre a percepção médica e os dados reais dos ensaios clínicos. Enquanto os médicos estimaram que apenas 32% dos pacientes apresentavam efeitos colaterais, estudos clínicos apontam taxas muito mais elevadas, entre 80% a 90%, destacando náuseas, constipação e diarreia como os sintomas mais comuns (Krishnan et al., 2025).
Além disso, a taxa de abandono relatada por médicos (8,6%) foi superior à observada em ensaios clínicos (4–7%), o que sugere que, na prática, os efeitos colaterais têm impacto mais expressivo na adesão ao tratamento do que previamente reconhecido. Esses dados reforçam a importância de uma abordagem clínica mais realista, baseada na experiência do paciente e não apenas nos dados de ensaio (Krishnan et al., 2025).
Por que esses medicamentos podem causar desconfortos gástricos?
- Os análogos retardam o esvaziamento gástrico, prolongando o tempo de permanência dos alimentos no estômago.
- Isso leva à sensação prolongada de saciedade e, em alguns casos, estase gástrica e hipersecreção ácida.
- O uso conjunto de GLP-1 e GIP, como na tirzepatida, parece atenuar parcialmente os sintomas de náusea devido à ação antiemética do GIP. (Hayes et al., 2021), (Borner et al., 2021).
Estratégias nutricionais para mitigar os sintomas
- Fracionamento alimentar: Refeições menores e frequentes reduzem a distensão gástrica, favorecem a digestão e minimizam a sobrecarga no trato gastrointestinal, especialmente diante do retardo do esvaziamento gástrico, causado pela medicação.
- Evitar alimentos gordurosos: Alimentos ricos em lipídios, especialmente gorduras saturadas, retardam ainda mais o esvaziamento gástrico via estímulo à liberação de colecistocinina. Essa sobreposição de efeitos potencializa sintomas como náuseas, sensação de estômago pesado ou indigesto.
- Preferência alimentos de fácil digestão: Arroz branco, batatas cozidas e proteínas magras como frango ou peixe são rapidamente processados e evitam a permanência prolongada no estômago. São ideais em fases iniciais do tratamento.
- Incorporação de fibras solúveis: Alimentos como aveia, maçã, cenoura e leguminosas contêm fibras solúveis que formam géis viscosos no trato intestinal. Isso auxilia no trânsito intestinal regulado, prevenindo constipação e diarreia.
- Hidratação adequada (mas não excessiva durante as refeições)
A ingestão regular de água ao longo do dia, auxilia na motilidade intestinal. Contudo, volumes elevados durante as refeições podem dilatar ainda mais o estômago e exacerbar a plenitude gástrica.
Importante: A limitação de substâncias irritativas como o excesso cafeína em e bebidas gaseificadas pode prevenir o agravamento dos sintomas gástricos.
Considerações finais
Embora demonstrem resultados eficazes, os análogos de GLP-1/GIP apresentam importantes taxas de efeitos adversos gastrointestinais que podem comprometer a adesão ao tratamento. A adoção de estratégias nutricionais específicas, como a escolha de alimentos de fácil digestão, controle da gordura na dieta e hidratação adequada, podem atenuar significativamente esses efeitos e preservar a continuidade terapêutica. O manejo conjunto entre equipe médica e equipe nutricional, aliado a uma abordagem individualizada de cada paciente é indispensável para o sucesso clínico e qualidade de vida.
Referências bibliográficas
- AHREN, B. et al. GLP-1 and its receptor: role in the regulation of insulin secretion and glucose homeostasis. Diabetes & Metabolism, 2002.
- MARRE, M. et al. Efficacy and safety of liraglutide in type 2 diabetes. The Lancet, 2018.
- MÜLLER, T. D. et al. GIP and GLP-1 receptor agonists: an overview of their therapeutic potential. Trends in Endocrinology & Metabolism, 2019.
- KRISHNAN, S. et al. Physician Perceptions of the Safety and Efficacy of GLP-1 Receptor Agonists: Underestimation of Cardiovascular Risk Reduction and Discrepancies with Clinical Evidence. Journal of Cardiovascular Development and Disease, 2025. Disponível em: https://www.mdpi.com/2308-3425/12/1/19
- THE MEDICAL LETTER. In brief: GI effects of GLP-1 receptor agonists. The Medical Letter on Drugs and Therapeutics, 2023. Disponível em: https://secure.medicalletter.org/TML-article-1690e
- HAYES, M. R.; BORNER, T.; DE JONGHE, B. D. The Role of GIP in the Regulation of GLP-1 Satiety and Nausea. Diabetes, 2021. Disponível em: https://diabetesjournals.org/diabetes/article/70/9/1956/137765/The-Role-of-GIP-in-the-Regulation-of-GLP-1-Satiety
- BORNER, T. et al. GIP Receptor Agonism Attenuates GLP-1 Receptor Agonist–Induced Nausea and Emesis in Preclinical Models. Diabetes, 2021. Disponível em: https://diabetesjournals.org/diabetes/article/70/11/2545/123864/GIP-Receptor-Agonism-Attenuates-GLP-1-Receptor